Abstract
Introdução (com objetivo): O diabetes mellitus tipo 1 (DM1) impõe elevada carga clínica e econômica aos sistemas de saúde, decorrente da incidência de complicações crônicas e eventos glicêmicos agudos. No Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil, o automonitoramento da glicemia capilar (SMBG) baseia‑se em testes pontuais, limitando a detecção da variabilidade glicêmica e de episódios assintomáticos. Os sistemas de monitoramento contínuo de glicose (CGM), como o sistema FreeStyle Libre 2 (FSL2), oferecem uma avaliação mais abrangente dos padrões glicêmicos e têm sido associados a melhor controle glicêmico, menor ocorrência de eventos de hipoglicemia e maior engajamento de pessoas com DM1. O objetivo do trabalho foi estimar a razão de custo-utilidade incremental (RCUI) do sistema FSL2 versus SMBG em pessoas com DM1, sob a perspectiva do SUS. Material e Método: Um modelo de microssimulação individual validado (DEDUCE) estimou os custos diretos ao longo da vida (em reais brasileiros, 2025) e os anos de vida ajustados pela qualidade (AVAQ) em uma coorte hipotética de 1.000 pessoas com DM1 e controle glicêmico inadequado (HbA1c ≥7%). O modelo foi adaptado à perspectiva do SUS e incorporou equações de risco específicas para DM1 do Sheffield Type 1 Diabetes Model, considerando um horizonte temporal de 50 anos. A coorte apresentou idade média de 34,1 (±19,9) anos, duração média da doença de 15,5 (±9,3) anos e HbA1c basal de 9,0% (±2,1%). Os principais parâmetros incluíram taxas basais de hipoglicemia não grave (67,6 eventos/pessoa‑ano), hipoglicemia grave (0,047) e cetoacidose diabética (0,044), obtidas da literatura. A efetividade foi baseada em reduções absolutas de HbA1c (−0,13% a −1,24%, dependendo do valor basal), derivadas de uma metarregressão. Os custos foram estimados por meio de microcusteio das complicações e dos custos de aquisição. Para o FSL2, assumiu‑se o uso anual de 24,35 sensores (substituição a cada 15 dias), com fornecimento do leitor sem custo. Para o SMBG, o uso médio foi de 3,7 tiras reagentes e lancetas por dia. Os valores de utilidade e as desutilidades associadas às complicações foram obtidos de fontes brasileiras ou adaptados da literatura internacional. Aplicou‑se uma taxa de desconto de 5% para custos e desfechos, com um limiar de custo‑efetividade de R$40.000/AVAQ. A robustez do modelo foi avaliada por análises de sensibilidade determinísticas univariadas e probabilísticas, estas últimas com 200 simulações de Monte Carlo de segunda ordem. Resultados: O custo total foi R$367.665 para o sistema FSL2 e R$343.601 para o SMBG, com custo incremental de R$24.064. A sobrevida média descontada foi de 12,52 e 12,04 anos, respectivamente. O sistema FSL2 gerou 6,59 AVAQ versus 5,49 AVAQ com o SMBG, correspondendo a um ganho incremental de 1,10 AVAQ. A RCUI estimada foi de R$21.934/AVAQ, indicando custo‑efetividade no SUS. As análises de sensibilidade identificaram a HbA1c basal, a redução da HbA1c e a desutilidade associada à hipoglicemia como os principais determinantes, com RCUIs variando de R$6.369,83 a R$39.014,09 por AVAQ. A análise probabilística mostrou uma RCUI mediana de R$24.229 por AVAQ, com 91% das simulações abaixo do limiar de custo‑efetividade, incluindo 10% de cenários dominantes. Conclusões: No limiar de disposição a pagar adotado, o sistema FSL2 é custo‑efetivo para o SUS, apoiando sua incorporação como uma tecnologia baseada em valor, capaz de melhorar a qualidade do cuidado e sustentar o controle glicêmico intensivo.

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