PE - 46 Cuidado Farmacêutico que Transforma: Relato de Experiência de um Futuro Farmacêutico em um Ambulatório Trans

Keywords

Cuidado Farmacêutico; Experiência Subjetiva com o Uso de Medicamentos; Farmácia Clínica; Gerenciamento da Terapia Medicamentosa.

How to Cite

Luis Felipe Macedo de Moura, & Brito, G. de C. B. (2026). PE - 46 Cuidado Farmacêutico que Transforma: Relato de Experiência de um Futuro Farmacêutico em um Ambulatório Trans. JORNAL DE ASSISTÊNCIA FARMACÊUTICA E FARMACOECONOMIA, 11(s.2). https://doi.org/10.22563/2525-7323.2026.v11.e00420

Abstract

Introdução: A formação em farmácia costuma enfatizar o aspecto técnico da dispensação de medicamentos. No cuidado à população trans, entretanto, o papel do farmacêutico se amplia, envolvendo escuta, acolhimento e acompanhamento contínuo. Diretrizes recentes reforçam a necessidade de práticas inclusivas e do farmacêutico como integrante essencial da equipe multiprofissional¹. O Ambulatório Trans de Lagarto–SE, inaugurado em 2019, é o primeiro e único serviço especializado do estado, referência no acesso a hormônios e medicamentos de afirmação de gênero². Nesse cenário, estudantes vivenciam um cuidado que vai além da técnica e se conecta às histórias e expectativas dos usuários. Objetivo: Relatar a experiência de uma estudante de iniciação científica no acompanhamento farmacêutico de pessoas trans em processo de transição, destacando dimensões subjetivas do cuidado. Descrição do relato: Este relato decorre da participação de estudantes de Iniciação Científica nos atendimentos do Ambulatório Trans de Lagarto–SE. A atuação farmacêutica divide-se entre dispensação de medicamentos e acompanhamento clínico, foco desta experiência. O acompanhamento utilizou um instrumento estruturado, incluindo a pergunta: “O que você deseja ou espera de seu tratamento medicamentoso?”, integrando aspectos técnicos às vivências e expectativas subjetivas sobre identidade e afirmação de gênero. Em uma consulta, uma usuária relatou o desejo de “ver no espelho aquilo que já enxergava por dentro”, mostrando que os hormônios transcendem a dimensão biomédica, materializando identidades historicamente negadas. O uso autônomo de doses intensificadas, como dobrar comprimidos ou antecipar aplicações, reflete não só a busca por eficácia clínica, mas a urgência de alinhar corpo e essência. Essa prática, embora arriscada, revela o valor simbólico do hormônio como marcador de pertencimento, esperança e transformação. O contato com esses relatos permitiu compreender que cada medicamento carrega significados subjetivos, desejos e ansiedades acumuladas. É importante reconhecer que nem toda pessoa trans necessita da hormonização para afirmar sua identidade; ser trans não se resume ao uso de medicamentos. Conclusão: Para muitos, o acesso aos hormônios é também o acesso a versões de si que por tanto tempo habitaram apenas a imaginação e o desejo, esperando o momento de ganhar corpo e forma. Democratizar esse acesso, com segurança e acompanhamento qualificado, constitui uma luta do cuidado farmacêutico. Assim, a farmácia se reafirma como espaço de escuta, acolhimento e transformação, onde ciência e humanidade se encontram para revelar no corpo o que sempre floresceu no íntimo. Ao longo dessa vivência, percebi que o estudante que entrou naquela quinta-feira já não é o mesmo. Em mim, a técnica encontrou a escuta, e o farmacêutico que nasceu desse encontro aprendeu a clínica com humanidade. Descobri que, no cuidado, também se floresce: transformar vidas é também deixar-se transformar.

https://doi.org/10.22563/2525-7323.2026.v11.e00420
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