Abstract
Instituição: As inundações ocorridas entre abril e maio de 2024 no Rio Grande do Sul afetaram mais de 90% do estado, resultando em milhares de pessoas deslocadas e mais de 180 mortes. Nesse cenário, o risco de infecções como a leptospirose aumenta significativamente, devido à associação da doença com fatores ambientais. Causada por bactérias do gênero Leptospira, a infecção ocorre principalmente pelo contato com água ou solo contaminados por urina de animais infectados, sendo favorecida em situações de enchentes. Diante disso, a quimioprofilaxia, medida que utiliza medicamentos para reduzir o risco de infecção da doença, foi recomendada na exposição populacional conforme orientado em Nota Técnica da Secretaria Estadual da Saúde (SES/RS) e da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI). Objetivo: Analisar a situação da leptospirose no RS durante as enchentes de 2024, com ênfase nas estratégias de quimioprofilaxia adotadas e seu alinhamento com diretrizes nacionais e internacionais. Métodos: Trata-se de um estudo descritivo, qualitativo, com análise documental. A pesquisa foi realizada através da coleta, organização e interpretação de documentos oficiais relacionados à quimioprofilaxia da leptospirose no contexto das enchentes. Foram analisados seis documentos, entre eles duas notas técnicas emitidas pela Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul (SES-RS) e uma pelo Ministério da Saúde, entre abril e novembro de 2024, e dois materiais de referência internacionais, incluindo uma revisão sistemática. Resultados: Observa-se uma divergência de recomendações sobre a quimioprofilaxia para leptospirose entre as diretrizes do Ministério da Saúde e as do Rio Grande do Sul. A Nota Técnica nº 16/2024 do Ministério da Saúde, baseada em uma revisão sistemática de Win et al (2024), não recomenda o uso rotineiro de antimicrobianos por falta de evidências robustas. Em contrapartida, a Nota Técnica da Secretaria Estadual da Saúde (SES/RS) e da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), embora reconheça a posição federal, endossa a quimioprofilaxia para situações de alto risco, alinhando-se à diretriz da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2003. Discussão e Considerações Finais: Observou-se por meio das Notas Técnicas que as orientações adotadas pelo Rio Grande do Sul durante as enchentes foram conflitantes com aquelas propostas pelo Ministério da Saúde. A adoção de quimioprofilaxia no Estado foi justificada como uma medida emergencial para grupos que foram expostos à mistura de águas pluviais, esgoto e lama,de forma prolongada, embora seu uso, de forma profilática, não seja uma medida 100% eficaz na prevenção da doença. A utilização destes documentos com diretrizes divergentes evidenciou uma falta de organização, alinhamento e preparo dos órgãos de saúde pública diante de situações de desastres ambientais. Diante disso, torna-se evidente a necessidade de fortalecimento da articulação entre as ações tomadas pelos órgãos federais e estaduais, além da atualização e padronização dos protocolos baseados em evidências científicas robustas que permitiram respostas mais rápidas, seguras e eficazes frente às emergências sanitárias, como as enchentes.

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