Resumo
Introdução: A reconciliação medicamentosa é reconhecida por organizações como a World Health Organization (WHO) e o Institute for Healthcare Improvement (IHI) como prática essencial para a segurança do paciente durante transições de cuidado. O farmacêutico desempenha papel central nesse processo ao identificar, corrigir e prevenir discrepâncias não intencionais entre prescrições anteriores e atuais. Evidências indicam que intervenções farmacêuticas reduzem discrepâncias clinicamente relevantes, diminuem erros de medicação e, em alguns cenários, reduzem readmissões hospitalares e visitas à emergência. Apesar disso, a implementação sistematizada da reconciliação medicamentosa ainda enfrenta desafios que comprometem sua cobertura e efetividade. Objetivo: Avaliar o perfil das reconciliações medicamentosas realizadas por farmacêuticos durante admissões e altas hospitalares de gestantes e puérperas, bem como a frequência, características e desfechos das intervenções relacionadas a problemas relacionados a medicamentos (PRMs). Métodos: Estudo descritivo transversal realizado entre março e julho de 2025. Os dados dos PRMs foram lançados na plataforma REDcap® pelos farmacêuticos responsáveis pelas reconciliações. A classificação de PRMs utilizada foi uma versão adaptada e validada do Pharmaceutical Care Network Europe - PCNE v.9.1. Dados sobre admissões e altas foram obtidos de relatórios do sistema AGHUx da maternidade. O estudo integra projeto aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CAAE 80569324.7.0000.5543). Resultado e Conclusão: No período, foram realizadas 1006 reconciliações de admissão (76,4% das 1317 admissões elegíveis) e 537 reconciliações de alta (38,9% das 1379 altas). Foram identificados 136 PRMs envolvendo 167 medicamentos (8,8% do total de reconciliações). Os principais medicamentos envolvidos foram sulfato ferroso (46,1%), medicamentos não selecionados na maternidade (19,2%), carbonato de cálcio + vitamina D (6,0%), clorpromazina (4,2%), enoxaparina (3,0%) e levomepromazina (1,8%). Dentre os medicamentos não selecionados, 28,1% eram sujeitos a controle especial conforme Portaria 344/1998, 28,1% eram polivitamínicos/suplementos, 15,6% diferentes apresentações de medicamentos padronizados e 12,5% ácido fólico. Das 78 intervenções realizadas (em 54,4% dos PRMs), 67 (85,9%) foram aceitas pelos prescritores. A análise indicou que 85,3% dos PRMs não chegaram ao paciente. A atuação do farmacêutico na reconciliação medicamentosa mostrou-se essencial para a detecção precoce e resolução de discrepâncias que poderiam comprometer a segurança do paciente. As altas taxas de aceitação das intervenções e a prevenção de PRMs antes de atingirem o paciente reforçam a efetividade do processo. A baixa cobertura na alta hospitalar representa oportunidade de aprimoramento, dado ser esse um momento crítico para garantir a continuidade terapêutica.

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