Resumo
Introdução: A sociedade brasileira, forjada numa cultura escravagista, condiciona a saúde a uma estrutura de raízes coloniais. Dessa forma, condutas que podem ser lidas meramente como neutras ou tecnicistas diante de uma perspectiva sem crítica colonial, são evidenciadas como práticas que entregam um serviço de saúde negligente e de baixa qualidade1,2 para pessoas racializadas. Objetivo: Como parte de uma pesquisa de doutorado, objetivou-se construir, implementar e compreender um workshop na Faculdade de Farmácia da UFMG que pudesse trazer à tona violências raciais a fim de identificar como estas ocorrem e sensibilizar estudantes e profissionais de farmácia para combatê-las na saúde. Métodos: O workshop foi aprovado pela comissão que organiza o Novembro Negro na UFMG e implementada em novembro de 2024. Elaborada a partir do prisma da contracolonialidade, ela visou combater estruturas que permanecem hierarquizando vidas2, mesmo após a colonização, utilizando-se a escrevivência3 como arcabouço teórico e operador metodológico além da observação participante de três pesquisadoras. A crítica freiriana ao ensino bancário e a enunciação de uma escrevivência objetivaram discutir vivências de mulheres negras em ambientes da saúde na primeira parte. Após essa etapa deu-se início ao júri simulado onde a escrevivência era debatida e lógicas racistas e sexistas que estruturam a sociedade puderam emergir dessa metodologia decolonial. Resultado e Conclusão: A atividade por si já é um marco antirracista em que pela primeira vez a faculdade de farmácia se mobiliza para a luta antirracista que já ocorria há sete anos na universidade. Nessa ocasião, por meio de escrevivências3 da primeira autora, essa metodologia foi descrita como “ensino tátil, quase posso tocar” e mostrou-se útil para evidenciar, por exemplo, a falta de analgesia efetiva e violências contra mulheres negras. O racismo é apontado pela primeira vez como causa do maior problema relacionado ao uso de medicamentos (PRM) epidemiologicamente1.3 relevante, e que apesar de ser debatido pela medicina baseada em evidências1, até então era escassamente abordado nas ciências farmacêuticas, sugerindo que o viés2 racial pode estar presente no cuidado farmacêutico. Práticas teoricamente neutras2 são evidenciadas pelos participantes como mantenedoras de uma cultura racista1 que habita os serviços de saúde. Mobilizados pela associação de metodologias contracoloniais3 os participantes apontam diretrizes antirracistas na educação farmacêutica rumo a promoção da equidade em saúde e justiça social2 A associação de escrevivência e júri simulado se mostra como uma perspectiva inovadora no ensino e na pesquisa em farmácia pois aborda antirracismo de forma potente, fulcral na evidenciação de um PRM de proporções epidemiológicas, potencializadora da igualdade racial e sinalizando que o antirracismo urge debate no contexto do cuidado farmacêutico.

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Copyright (c) 2026 Bárbara Taciana Furtado, Kirla Barbosa Detoni, Maria Gabrielle Lima Rocha, Simone Araújo Medina Mendonça, Djenane R Ramalho-de-Oliveira
